segunda-feira, 5 de julho de 2010

Aportar

Em tempos atrás, ele pensou que havia parado o viver e seguido para além do além-mar. Mas, porque por vezes as passagens da vida são contraditórias e no entanto possuem a beleza intrínseca do mistério, fora um processo quase contrário de tudo que pensara e que acharia.

Afinal, quando se pensa que está preparado, pode realmente não estar.
Quando se acha que se perderá, é então que há o encontro.
E ele pensava que estava por ir vagar, no entanto, o que faria era aportar.

E isso porque aportar não está ligado ao facto de estar abrigado a beira, está ligado ao facto de ter para onde voltar, ter onde jogar suas âncoras na terra, suas raízes no mar e assim ser mais do que simplesmente guarida; é ser Identificação.

Mas para identificar-se precisa saber do intrínseco e pertencente a si, pois caso contrário, sempre se vagará a olhar para espelhos imperfeitos, e nunca um porto há-de encontrar. E assim, antes de encontrar, perdeu-se entre sonhos, mas também pesados pesadelos; perdeu-se de si mesmo e até mesmo do seu coração, perdeu-se entre cobertores depressivos e a cinzitude dos porquês; perdeu-se em porquês que seriam somente respondidos no tempo, tempo correcto de aportar.

E na identificação de aportar, o tempo não o matara como fizera com Narciso. Este sempre achou feio o que não era espelho e teve seu fim ao fundo. Com ele quase fora o contrário: fora ao fundo e reflexo que vira fizera o voltar a superfície para então encontrar-se. Soubera dos porquês exactos de latitudes e longitudes, do passado arraigado em si, do poder de palavras pronunciadas, e até mesmo do quadriculado que havia em seus pés. Soube da sua independência, da sua métrica, da sua exclamação, determinação e também mesmo dos pontos de interrogação. Soube do que gostava em si, até mesmo do que gostavam, do coração, da falta que faria e que este também sentiria.

Como nunca, fora ele próprio pela simples estratégia de ser, e gostara disso, gostaram disso, conquistaram com isso e, por isso, foi e foram felizes. E esta felicitude não seria mais circunstancial e quase paradoxal, seria presente porque encontrara-se, encontraram-se, identificou, identificaram-se, e assim, apesar de mais quantos mundos criasse e encontrasse, tinha onde poderia voltar quando quisesse, tinha sempre um reflexo, um ponto.

Tinha seu Porto.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

no Cais

E ali no cais, no cais de seu Porto, ele podia ver mais do que somente o oceano que se estendia a sua frente. Mesmo com os olhos voltados para o além-mar, mesmo com estes marejados, podia ver tudo que havia atrás de si, atrás de seu corpo, atrás de sua história. Era perceber tudo, permanecer em si e em tudo, e assim, fazer história. Histórias de vidas, de portos e de cais que são feitas de pessoas, por pessoas, e para pessoas, e deste modo e por este modo, possuem o engrandecimento de valer a pena.

E ali no cais, no cais de seu Porto, ele podia perceber a calmaria perante o sublime que fazia levitá-lo, elevá-lo, plano e pleno sobre o que era e o que seria. Poderia haver sim estática no ar, mas também havia toda a recolha da tempestade, e toda fúria da calmaria devido ao facto da felicidade ser pertencente a atmosfera que rodeava.

E ali no cais, no cais de seu Porto, bagagens eram maiores do que deveriam porque ele tinha vivido. E é impossível aprisionar o tudo internamente em compartimentos herméticos; e por este facto, desafiou o impossível, engrandeceu ainda mais o coração, fez e desfez e refez, e assim conquistou, conseguiu, e aportou.

E ali no cais, no cais de seu Porto, virou as costas para o mar, não como um sinal de desprezo, mas somente porque suas memórias deliciosas, e suas lembranças vivas continuavam por lhe chamar pelo nome, seu nome; como assim era, como assim quisera, como ele percorreu o mundo até encontrar alguém que soubesse como ele chamava e ali encontrou vários. E este processo seria mútuo e em conjunto, como fora ali: dele descobrir e reconhecer seu real nome ao mero sonorizar de tal, e das pessoas saberem como chamá-lo e até mesmo pronunciá-lo, e assim, fora ali que isso acontecera.

E ali no cais, no cais de seu Porto, percebeu ainda mais que todo processo de grande valor nessa vida era feito de pessoas. E de maneira melhor do que Narciso, ele tinha se encontrado naquelas águas e naqueles reflexos porque tinha se encontrado nas pessoas. Ele não era de lá, ainda não sabia ao certo se era completamente e somente de cá, mas era mais uma vez a quebra do velho paradigma imposto, e assim que não era dele, que dizia que não poderia ter tudo. Nos seus parâmetros sim, assim como nos padrões de Sócrates, poderia ter tudo, poderia ser de tudo. Nem grego, nem troiano, nem ateniense; cidadão dos seus mundos.

E ali no cais, no cais de seu Porto, já com os olhos fechados, e por não saber se direccionava-se para seu Porto, ou para o além-mar, alto-mar, ele sentiu a certeza dentro de si que voltaria. Mais do que voltar ao seu Porto, voltaria a se encontrar, a valorar, a desafiar, a ser, perceber, permanecer, porque mais do que passado, agora era presente, era agora. E presente era o que pudera ter e viver porque assim ele fora sempre parte da completude que havia, fora também cais, e fora também Porto no seu cais, no seu Porto.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ele e seu ser

Tijolo por tijolo.
Ele tentou derrubar os muros, mas, na verdade, o que fazia era empilhar tijolos.
Ele já não lamentava mais, apenas seguia em frente e via seus horizontes.
Fora ele sempre o vulto bom que se fora, e a vida era para si aquele espelho imperfeito que tornava o viver visível ao seus olhos, como se fosse a vida de outros.

   
Ele era o vento domável, mas jamais enclausurado ou traído.
Ele era o caminho a sua frente, e a pressão na sola de seus pés.
Ele era a certeza para não mais vacilar, e nem sequer titubear os passos.
Era ainda o acreditar e considerar possíveis suas velhas suposições; somente não mais acreditava naquela situação por saber que ela não era mais para si.
  
Ele era o boi pra não entrar numa briga, e a boiada para não sair dela.
Era a velhice nos seus olhos, e a experiência do seu viver,
A maturidade de suas roupas, e o trabalho em suas veias,
Suas músicas melodizadas, suas frases inacabadas, sua literatura improvisada.
 
Era o desafio a sua frente, e a contra-mão do mundo.

Ele era a certeza do que sempre fora, e a dúvida do que iria ser.
Ele era a integridade até o último segundo, e inteiro apesar depois do acabar.
Era o café, e o gosto refinado de seus queijos.
Era a profundeza de seus olhos, e a pureza de suas palavras,
Era o paladar de seus vinhos, e o sorriso da vermelhidão.
Não era mais a culpa, era o aprendizado.
Era a calmaria, e era o pulsar do urbano.
Era completamente o tecnológico e a casa no campo.
Era bom demais, e assim sempre seria.
Já não era mais as lágrimas, era o sorriso/riso da compreensão.
   
Ele era o que sempre fora, o que por vezes não sabia, mas sempre preferia ser.
Já não era mais o anel em seu pescoço, era seus novos óculos.
Era a combinação de suas cores, sua postura e elegância,
O improvável, mas certeiro do seu viver,
O moderno, mas o aceitar lentamente o seu novo.
   
Era a transição eterna dos seus pensamentos,
Era o cachorro que queria ter, e teria,
Era o cuidar que descobriu e vislumbrou, e o cuidado de si.
Era o medo de não encontrar, e a certeza que acharia.
   
Era suas linhas e suas agulhadas,
Era o não mais apagar,
Era o ficar chateado consigo mesmo, mas saber que o outro era o errado.
Era o que desconhecia e com aquilo que fora sonhado.
   
Era a cinzitude depressiva, e as cores da vividez,
Era a concretude do coração, e a moleza deste,
O silêncio na voz, e a análise de seu olhar,
As oportunidades do seu horizonte,
A inconstância dos pensamentos,
O vento no rosto, e a velocidade do sangue,
A explosão, e o lentamente.
   
Fora a retidão, apesar de já ter ido.
Ele era a clausura da mente, e o extravasar nas paredes.
Ele era o medo do que poderia acontecer com o outro, mas a certeza do não continuar.
Era a certeza de nunca mais ser visto, e a ternura que guardara dos olhos e do olhar.

Era tudo,
O nada
   
Era...

So brick by brick
I'm not giving up
I'm not giving giving up

    

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Será que é possível explicar-te aquele perguntar de ontem?

Porque a explicação pode ser parte do entender o que não existe.
E o explícito mostra somente a sombra da realidade presente no fundo de nós mesmos e da caverna.
Porque, por vezes, não há nada a explicar. Mas o simples facto de tentar traz a paz que não há na imensidão, e, às vezes, nem nós mesmo sabemos o que se passa aqui dentro. Não se entende e se perde nos corações, mares, desertos, emoções, e em nós mesmo. E o vazio de nós transforma-nos em imensidões a serem desbravadas, e até mesmo brabas, que mostram contradições e paradoxos existentes no simples peito.
E mais do que nunca eu estou perdido em mim.
Eu mesmo não tinha a ideia da pergunta, do perguntar, a questão, o questionar, o porque desta sensação, e todo o desdobrar que traria, mas eu resolvi arriscar. Porque o teste provoca não somente a sensação da possibilidade, mas a averiguação de sinais passados pela vida e pelo viver. E saiba que foi a primeira vez em toda a vida que a fiz assim. E não era eu, não era a mim, não era a você. Foi mais um dos conselhos que não deveriam ter sido tomados, dos que nunca tomei e desta vez cedi pelos mares revoltos, por ser da parte paternal e pensei que poderia segui-lo. Doce, amarga, fel ilusão da vida a distância que assim nos toma e faz acreditar que poderia ser verdade. Eu jamais segui tais conselhos. Pensar que poderia segui-los agora foi somente mais uma cegueira de todo o mar. Mais uma vez vejo-me tão diferente; mais um que eu não deveria ter escutado, aceitado, acreditado. Mas por estar perdido nesta imensidão, lembrei dele e resolvi arriscar. Não era eu, jamais fui, sou, serei, pois, a incerteza ajuda na construção da decisão e certeza, e, por mais que não se saiba qual caminho a ser seguido, sabe-se alguns trilhos e rotas.
E confesso que me pergunto qual será a imagem que ficará, qual o oceano, ou mesmo a terra à vista. Mas pelo menos assim você conheceu uma parte de mim. Uma parte que eu não sou. É o ser que não é. É quase o que não pode ser visto por simplesmente não existir, e eu quase forcei que estivesse aqui devido ao simples facto de vacilar os passos por caminhos e olhos lacrimosos.
Já sabia de antemão o simples facto de algumas ocasiões não poderem ser estragadas pelas situações adversas da vida, dos corpos e das marés. Estar perdido não é justificativa, mas acho que infelizmente prejudica na leitura.
E assim, nada pode ser explicado, e simplesmente o passado serve para nos contrariar e entender, para que, no futuro, seja menos um erro a mais a ser vivido, e o débil que há dentro de nós se faça mais ausente, assim como a pergunta, e mesmo o não ser que passou ontem aqui.


Perdi me muitas vezes pelo mar,
com o ouvido cheio de flores recém cortadas,
com a língua cheia de amor e de agonia.
Muitas vezes me perdi pelo mar, como me perco no coração de alguns.
Porque as rosas buscam em frente uma dura paisagem de osso,
e as mãos do homem não tem mais sentido do que imitar as raízes sob a terra.
Como me perco no coração de alguns,
perdi me muitas vezes pelo mar.
Ignorante da água vou buscando uma morte de luz que me consuma.

sexta-feira, 26 de março de 2010

mais do que amanhecer

Ao abrir os olhos, ele percebeu que não importava se havia sol ou não porque simplesmente o som da voz dela ao acordá-lo, e proferir aquelas duas simples palavras, era suficiente para raiar os sentimentos e saber que poderia mudar todo o dia. Ao inalar o ar matinal, pode perceber os aromas suaves da manhã adentrarem seus pulmões e o revigor a preenchê-lo muito mais pelo doce perfume dela que chegava a percepção olfativa do perceber o mundo, do que mais o ar vital que era necessário e próprio para o viver. Para ele, o viver dependia de outras coisas e até mesmo de outras sensações. Assim, pelo iniciar dos factos e a certeza que era somente o iniciar, foi contemplado pela decisão que aquele sim seria mais um Bom Dia.

"... tinha suspirado,
tinha beijado o papel devotamente!
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades,
e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas,
como um corpo ressequido que se estira num banho tépido;
sentia um acréscimo de estima por si mesma,
e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante,
onde cada hora tinha o seu encanto diferente,
cada passo condizia a um êxtase,
e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"

domingo, 14 de março de 2010

Quase despedida..., Quase romance...

Algumas pessoas falariam a mim para não escrever isto tudo a ti.
Falariam para simplesmente virar as costas e ir embora. Mas eu não posso fazer isso assim deste modo. Meu coração também manda dizer estas palavras a ti.
Ainda quero-te bem e desejo que você possa realmente aprender, crescer e viver bem. Que você aprenda a lidar com as pessoas, com as alegrias e dores da vida, e até mesmo com você própria. Que aprenda a encarar a vida, as situações, os problemas e não os empurre para a próxima vez que os tiver que encarar.
Será pela última vez, mas, mais uma vez, reafirmarei a tua força, a garra que sei que tens de viver, de conquistar as coisas, teus sonhos, planos e vontades. Mas você precisa acreditar nessa força; não basta eu acreditar, todos acreditarem e mudarem o mundo para isso. É preciso que você mesma acredite que haja isso dentro de ti.
Não simplesmente leve a vida como ela é tocada pelos ventos. Determine os rumos que você quer, as conquistas que deseja, as situações que você deslumbra e que trazem brilho aos teus olhos. A vida é algo tão único que Deus nos deu, Querida, que precisa ser vivida em todos os âmbitos. E não estou por dizer que tudo precisa ser vivido somente no agora. Há situações que podem aguardar pelo melhor momento, pela situação que melhor convém. O imediato é delicioso, mas é preciso olhar-se o todo, o todo da vida, para que ela seja, na complementariedade existente, aproveitada e vivida com todos os melhores que Deus, e nós mesmo, construímos. A vida é tua, somente você pode vive-la.

Um conselho, se eu puder dar algum, era para tu não viveres a vida e história dos outros. A história deles pode ser realmente linda, pode sim ser exemplo, não pela perfeição, mas por tantas qualidades, e mesmo os defeitos que têm. Mas entenda que a vida dos outros é dos outros. Ela já foi vivida por eles e não existe modo de repetir-se em ti. Pegue tudo que eles viveram e faça de exemplo, aprenda com as lições, veja os detalhes, analise, pegue tudo de bom e ruim e coloque na TUA vida do TEU modo, não do modo deles.
Ainda sobre os objectivos da TUA vida, como você mesma já me disse uma vez:

"Atingir objectivos é um processo que envolve esforço conjunto: entrar em contacto com nosso coração, determinar um curso a seguir e, então, depender de Deus e estar disposto a deixar que ele nos guie, um passo de cada vez".

Não largue seus sonhos pelo caminho, não deixe a vida ser tocada como ela simplesmente quer. Nunca acredite que teus desejos e sonhos são pequenos e mesquinhos. Corra atrás da vida. Ela é tua, e só você pode correr, agarrá-la e vive-la. Eu, e todos ao teu redor, podemos somente te instruir, mas a corrida é tua. Às vezes pode parecer uma corrida solitária, mas não é. Deus está sempre conosco, e coloca também pessoas ao nosso redor para nos ajudar. E mesmo nas vezes que nos sentimos mais fracos, Deus está sempre do nosso lado, para nos carregar e nos ajudar. É pedir, confiar nEle, e, no mais, Ele fará. Talvez esta seja mais uma das etapas do crescer.
E nesta etapa, você precisa aprender a cuidar de você própria, cuidar do teu coração. Quando você me conta das coisas que fez, e dos erros que cometeu, percebo que isto fere profundamente a você mesma. Eu fico um pouco assustado como você consegue fazer estas coisas com você mesma. São feridas que você faz com você mesma. O que me entristece bastante.
E eu confesso que estou por ir embora porque preciso cuidar de mim mesmo. Tem me feito muito mal ver o que você faz com você mesma, comigo, e conosco. Não pense que está por ser uma tarefa fácil, mas é algo que eu preciso fazer por mim, e até mesmo por você e por nós.
Eu nunca soube mesmo lidar contigo. Procurei as melhores formas, mas nem sempre as encontrei. Algumas funcionaram, mas nem sempre consegui o que desejava. Mas penso e espero que assim, com este acto meu de agora, você possa aprender um pouco mais e tomar algumas atitudes diferentes. Eu tentei, através de várias vias, ajudar te a perceber as atitudes que você precisava mudar, mas talvez nem todas foram suficientes. E assim, tenho que pensar em outro modo de auxiliar-te. Além também, tento fazer isso para meu bem, e para o teu também.
E ainda por pensar no teu bem, peço ainda mais veementemente uma coisa a ti. Esqueça completamente, arranque da mente, limpe da memória a famosa frase que já te disseram: “Ela não é uma pessoa fácil.” Vi, em minha vida toda, poucas coisas tão destrutivas e mentirosas como esta frase. Oh, Querida, jamais volte a lembrar dessas palavras, dessa mentira tão descabida que fora colocada em ti. Lembre-se sempre das palavras sinceras e verdadeiras que foram ditas. Não digo que este grupo de palavras será somente de palavras boas, de qualidades. Terão coisas duras também. E faça delas, todas elas, aprendizagem. Mas estas palavras ditas a ti não servem de nada, e não são verdade. Neste 14 meses, vivi tempo suficiente contigo para descobrir, vivenciar e atestar que o convívio contigo não é isto que estão por afirmar.
Rogo-te que as esqueça a partir de agora.

E nas últimas palavras, nas nossas últimas conversas, se passei a percepção que fui um pouco cruel, peço desculpas, mas nunca foi esta a intenção. A intenção foi sempre fazer-te bem. Pode parecer contraditório, mas é isso sim. Nem sempre quem te diz palavras doces quer o teu bem, e palavras duras, o teu mal. Sei que falei coisas realmente duras para ti, elas também doeram me mim. Foram todas ditas da melhor maneira que pude, apesar de saber que, em algumas vezes, estava também ferido demais, e assim, as palavras também feriram. Mas elas foram todas pensadas e analisadas como você sabe que eu faço. E são todas completamente verdadeiras, e por tentar o teu bem.

Uma das coisas que lembrei por esses dias foi que eu escolhi sem saber, sem ter certeza, e fiz somente por acreditar no que estava dentro de mim. Logo no começo, quando te conheci, tive que escolher entre você e o mundo, e não poderia esconder isso de você, não poderia “enrolar” a você até que tivesse a resposta correcta. Tinha que ser sincero, transparente, digno e justo com você.
E quando tomei a decisão não pude pensar na outra hipótese, ela já havia ficado para trás.
E depois da escolha, tive que construir o correcto com o que tinha nas mãos. E consegui, conseguimos.
Foi assim que eu a escolhi, e não me arrependo por isto. Como disse para você logo no começo:

"Eu acho que as coisas foram como deveriam ser, como eu pedi ontem para Deus: que meu coração ficasse tranquilo com a decisão que eu tivesse tomado. E sim, eu tava tranquilo, e ainda estou. Agora sei que tenho que colher as consequência das escolhas que fiz. Mas estou disposto a encará-las, todas elas. Acho que fui digno e transparente comigo e com você. E, apesar de tudo, é assim que tenho que agir. Agora é continuar por contar as horas pra hoje. Estou por ir buscar meu coração que deixei ai contigo.
Beijos e Saudades"

As coisas entre nós não foram momentâneas, apesar de serem rápidas.
Não foram despretensiosas, apesar de inesperadas.

Sei o quanto está complicado a situação e pressões por ai, mas se pudesse fazer-te mais um pedido a ti, era para continuar aquelas conversas de fim de tarde. Você ainda tem muito a aprender, amadurecer e melhorar, Querida. E sei que isso é possível. Todos nós sempre temos. Mesmo eu próprio tenho visto como tenho a aprender. Mas, confio nas conversas para que nelas, você possa mais rapidamente alcançar tantos mais melhoras que você possa e precise. Deposite a confiança nelas, como estou eu a depositar. Tais conversas farão somente bem a ti.

Eu tenho tantos questionamentos aqui sobre você, sobre tudo (você me conhece), mas não farei mais nenhum a ti. Deixarei todos guardados aqui comigo.

Lembre-se sempre do melhor que foi, dos ótimos e melhores momentos. As falhas e erros que tivemos, leve como lições. Não é porque acabou que tudo foi terrível e merece ser esquecido. Você mesma sabe que jamais será esquecido. Guarde no campo das memórias boas, das coisas gostosas, das delícias da vida e do eterno, da paz que transmite, como foi no sonho.

It used to feel like heaven
It used to feel like may
I used to hear those violins playing our strings like a symphony

Deixo-te esta letra do Renato que me veio a mente. Ela expressa um pouco de tudo; desde o que vivemos, ao que estamos por viver e ainda o que temos que viver.


Vento No Litoral

De tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda esta forte
E vai ser bom subir nas pedras
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora...


Agora está tão longe
ver a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim...


Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você esta comigo
O tempo todo
E quando vejo o mar
Existe algo que diz
Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem...


Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Lembra que o plano
Era ficarmos bem?


PS: não pude me despedir no final. Seria demais para mim.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Ele e Ela, Ela e Ele

Ela não sabia o que queria até o encontrar, Ele a encontrou sabendo o que queria.
Ela sentiu borboletas no estômago, Ele não sabia o que era isso.
Ela reparou nas vírgulas, Ele reparou nos óculos.
Ela flutuava lépida, Ele procurava álibis.
Ela descansava lívida, Ele sucumbia ao pânico.
Ela se entregou, Ele apenas recebeu.
Ela o amou por nuvens de algodão doce e notas musicais, Ele a tomou como mais uma em um vasto mundo de amores vazios e iguais.
Ela falava, Ele não ouvia.
Ela acreditava, Ele mentia.
Ela o esperava, Ele não voltava.
Ela queria coisa séria, Ele só queria se divertir.
Ela sorria para Ele, Ele ria dela.
Ela acreditava em tudo o que Ele dizia, Ele dizia o mesmo para todas.
Ela falava “Eu te amo”, Ele sorria e dizia da boca para fora.
Ela queria para sempre, Ele só por aquele momento.
Ela se entregava, Ele se evitava.
Ela procurava o príncipe, Ele a próxima.
Ela só queria Ele, Ele queria todas.
Ela ficava por conteúdo, Ele por quantidade.
Ela chorava, Ele ria.
Ela sofria, Ele nem ligava.
Ele, enfim, dormiu apático na noite segredosa e cálida, Ela despertou-se tímida feita do desejo, a vítima.

Mas mudanças acontecem.
E são daquelas reviravoltas da vida que nem sempre sabe de onde se veio, mas sabe que se afectará a vida para sempre, o todo sempre.
Iria doer nos dois,
E iria sempre estar por ali.

Ela descobriu que ele era mais um, Ele descobriu que ela era a única.

Ele implorava por mais um único beijo, Ela sentia nojo da própria boca.
Ele revivia os tempos passados, Ela esquecia.
Ele lutava para guardar tudo dentro de si, Ela preferia dilacerar-se para arrancar tudo de lá.
Ele desafiava o para sempre, Ela o nunca mais.
Ele ainda corria atrás, Ela a muito já estava cansada.
Ele queria reviver aqueles seis meses, Ela agradecia por eles estarem na memória.
Ele juntava tudo, Ela entregava os pontos.
Ele ainda dizia que gostava, Ela já não acreditava mais em palavras e actos.
Ele ainda a sentia, Ela não sentia mais nada.
Ela ainda O completava, Ele jamais sentira de facto o que Ela era.
Ele não A merecia, Ela sempre fora boa por demais para e com Ele.
Ele não sabia de nada, Ela pensava sempre.
Ele era a dúvida, Ela a determinação.
Ele sempre teve tudo de bandeja, Ela sempre correra atrás do mundo e conseguira-o.
Ele ainda chorava suas lamúrias, Ela já não lamentava mais.
Ele ainda a guardava como a conhecera, Ela já não sabia mais pelo que se apaixonara.
Ele estacionaria, Ela iria seguir.
Ele queria a velha rotina, Ela novos planos e alvos, novos mundos.


Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você me assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade por favor não dê na vista
Bate palma com vontade, faz de conta que é turista


* Nota do Autor: A primeira parte é a compilação de alguns texto encontrados na internet e ainda o acréscimo da música do Skank: Formato Mínimo - Composição: Samuel Rosa - Rodrigo F. Leão.
Somente o intermédio e a segunda parte são de autoria própria.

segunda-feira, 1 de março de 2010

na contracapa do livro

Porque eu sei que você terá um grande amor na vida.
E assim, espero que você,
a cada dia,
cuide com todo carinho e cuidado dele.
Espero que o “a cada dia”
torne-se o “pra sempre”,
daquele do tipo que nunca acaba.
E que deste modo,
você possa ser completamente feliz e continue a cuidar,
como sei que você já cuida hoje,
do seu grande Amor.

Seja feliz
e Ame muito.

Em terras distantes, mas era perto do teu aniversário.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sapatos, Sensações e Canções

Ele saiu de casa e, quando observou que já estava na rua, percebeu que não tinha planos para onde ir. Foi estranha a sensação, pois ele sempre tinha algo para fazer, algo para cumprir.
Olhou para um lado... Olhou para o outro.
E a sensação que teve foi dos pés serem molhados por aquele derramar do céu que ocorrera poucos minutos antes. As meias molharam-se enquanto estava parado ali. Sim, seus sapatos tinham por onde a água entrar. Mas já não tinha mais problema, eles eram brancos e ele ainda gostava deles.
Ainda com a percepção de não ter onde ir, lembrou do que lhe falaram antes:
Mais irresponsável.
E ainda acrescentou:
Menos reflexivo.
Mais irreal.
Deveria ser essa a solução, ou pelo menos parte dela. Ele, que sempre lutara para existir, deveria procurar a irrealidade na real e assim continuar a seguir o caminho.
E desta vez, este o conduzira para aquele velho e delicioso ambiente; aquelas lojas de instrumentos onde ele perdia-se. Não sabia se fazia dois ou três séculos que não passava por ali. E o voltar trouxe a mesma deliciosa sensação, e a novas perspectivas: compraria novos violões, novas cordas, novas canções e tudo mais musicalmente possível. Ou impossível.
Para guardar tudo dentro de si, comprou duas palhetas, e um bocado de sonho com notas de vontade.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Inverno... Dor... Vida e Morte

Milano. Inverno.
Um dia qualquer com um pouco de sol.

E foi ali, entre as lápides do Cimitero Monumentale, que mais uma vez ele se deparara com a velha constatação: Morrer não dói.
Em cada passo que dava entre aquela falta de vida, percebia ainda mais forte que a morte deveria ser somente mais uma etapa. A etapa de desligar-se, de apagar a luz, de fechar as cortinas e encerrar o espetáculo que se dá no grande palco da vida. E assim, apesar de ser mais uma etapa, era a etapa sem dor, sem sofrimento, sem aquela agonia que sempre permanecia. Permanecia por ele estar vivo.
Viver era que doía.
Mesmo entre as lápides, entre aqueles que descansavam eternamente, percebeu que o simples facto de não ter onde os vivos descansarem ali no Monumentale era mais uma marca que existia: aqueles que tinham o coração por bater teriam que sempre caminhar, e um pouco de cansaço sempre estariam por lhes afligirem.
Até o final, a vida teria aquela velha, e constante, companheira que afligia o coração. O ato de viver não era a etapa de escolher a maior felicidade, mas sim, a menor dor.
Eram sempre escolhas, ele sabia disso, e sempre detestava. Ele não queria escolher. Queria o mundo, queria tudo, cada gole, cada badalada do sino, cada compasso da canção e cada ato da peça no palco da vida.
Por vezes ele escutava: "Você não pode abraçar o mundo".
Ele odiava ouvir aquilo, mas sabia que era verdade. Mas o correr atrás de tudo fora sempre mais uma de suas marcas.
E nesta maratona, a corrida era só.
Esta luta fora sempre solitária, e sempre contra ele mesmo.
Neste palco, era sempre monólogo que reinava.
E nem mesmo plateia havia. A solidão e corroer era mesmo só. Seja enquanto o eterno descansar encontrava-se nas lápides, seja enquanto o coração batia. Ou melhor, doía.
Isso tudo não era marca de amargura ou de pessimismo, mas era somente a constatação do viver.
Poderiam chamá-lo de masoquista, mas ele gostava do viver. Era uma das tarefas emocionantes da caminhada. Tinha o arde das emoções, a intensidade dos sentimentos, e a tragicomédia dos gregos e romanos. Até mesmo os troianos marcavam presença com a guerra e o amor. Fortes por natureza, e doloridos, coloridos e corroídos no mesmo quanto e tanto.
O corroer de coração era marca presente do viver. E, talvez por isso, ele parava de bater na morte. Não teria mais dor, não teria mais sofrer, não teria mais nada. Nem o coração a sofrer.
E a morte não doía.