Era até difícil de respirar. O ar não entrava nos pulmões.
Por mais que ele puxasse com toda força o ar para dentro, ele não entrava. Quase perguntou se ainda sabia fazer aquilo ou se já tinha perdido o sentido.
Mas os sentidos ainda estavam ali, todos a flor da pele aflorando com tanta intensidade que nem podia perceber tudo que estava por acontecer e o rodear.
Era nó na garganta, o estômago colado nas costas, o vômito praticamente na boca, os dentes mais do que cerrados, mandíbulas travadas, as mãos trêmulas, o grito que não lhe saía da garganta, os olhos cheios de lágrimas que não escorreriam e o velho questionar dos porquês. Sim, este sempre estava ali.
Mais do que nunca as palavras passadas que um amigo lhe falara ecoaram tanto dentro de sua cabeça. Era o passado que fora transformado em presente:
Amigo diz:
a cara .. isso é cruel mesmo....
e justo agora
sei que vc quer os porque.. todos os porques
imagino o q passa na sua cabeça.....
meu amigo inquieto.
Ele diz:
não sabia q vc me conhecia tanto assim
Amigo diz:
Eu sei como vc é
eu tb .. fui assim
a gente é inconformado com a vida
Ele diz:
Meu Deus, vc me conhece mesmo
mas é exactamente isso
eu já questionei sobre isso mais de milhões de vezes. Mas em nenhumas delas eu cheguei a me lamentar, preferi viver.
E viver doía. Ele sabia disso.
Não entendia o que passava dentro dele mesmo, e talvez nem tivesse importância, pois tentava entender o que se passava a léguas dali, naquele local que sempre roubara o seu pensamento e sua alma.
Era pré-ocupado, e já tinha seu destino cravado na pedra se encontrasse-se só.
Largaria tudo e se afogaria... no trabalho, na ambição. Tinha certeza que esta seria a única maneira de voltar a respirar se perdesse a alma. E isso não doeria mais, nunca mais.
Mas ainda tinha um fio de vida, aquele completamente contrário, que ele insistia em manter dentro de si. Ele se preocupava e queria bem.
Poderia sentir raiva, vontade de odiar, de expulsar da vida, de exorcizar e também mandar para os diabos…, mas não conseguia, e nem queria, e nem tinha vontade. Queria sempre perto, mais perto do que a própria carne, mais dentro que a própria alma.
Era das poucas coisas que ele não tinha explicação, mas também não as queria.
Já tinha tomado as próprias decisões para isso. É como dissera em cafés gelados: Dilaceraria a própria pele para isso. Ele gostava de ver o próprio sangue correr. Já tinha vivenciado algo assim, mas desta vez nem queria mais continuar vivo se as coisas não fossem assim. O sangue correr para fora do corpo lhe traria vida. Ele tinha amor, e tinha uma vida.
Lembro da epifania e entendeu o que a maldita que chegara a pouco a seus ouvidos queria lhe dizer. Era exactamente aquilo: era um, mas era diferente. Era o melhorar, mas poderia ser somente ali. Não sabia se tinha desapontado ou se tinha deixado um gosto ruim na boca. Sabia que não poderia levantar os mortos, nem mesmo se estes fossem ele. Sempre questionava-se se era pedir demais, mais do que o possível. Sabia que deixaria, se não fosse cuidado. E, por isso, tentava até a última gota. Mas o amor era um templo, era a maior lei.
Traduzia-o, como nunca o traduzia.
Era o seu suplicar para que o traduzisse.
Uma vida, mas não era igual.
“One love, one blood, one life, you got to do what you should.”
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
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