quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sapatos, Sensações e Canções

Ele saiu de casa e, quando observou que já estava na rua, percebeu que não tinha planos para onde ir. Foi estranha a sensação, pois ele sempre tinha algo para fazer, algo para cumprir.
Olhou para um lado... Olhou para o outro.
E a sensação que teve foi dos pés serem molhados por aquele derramar do céu que ocorrera poucos minutos antes. As meias molharam-se enquanto estava parado ali. Sim, seus sapatos tinham por onde a água entrar. Mas já não tinha mais problema, eles eram brancos e ele ainda gostava deles.
Ainda com a percepção de não ter onde ir, lembrou do que lhe falaram antes:
Mais irresponsável.
E ainda acrescentou:
Menos reflexivo.
Mais irreal.
Deveria ser essa a solução, ou pelo menos parte dela. Ele, que sempre lutara para existir, deveria procurar a irrealidade na real e assim continuar a seguir o caminho.
E desta vez, este o conduzira para aquele velho e delicioso ambiente; aquelas lojas de instrumentos onde ele perdia-se. Não sabia se fazia dois ou três séculos que não passava por ali. E o voltar trouxe a mesma deliciosa sensação, e a novas perspectivas: compraria novos violões, novas cordas, novas canções e tudo mais musicalmente possível. Ou impossível.
Para guardar tudo dentro de si, comprou duas palhetas, e um bocado de sonho com notas de vontade.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Inverno... Dor... Vida e Morte

Milano. Inverno.
Um dia qualquer com um pouco de sol.

E foi ali, entre as lápides do Cimitero Monumentale, que mais uma vez ele se deparara com a velha constatação: Morrer não dói.
Em cada passo que dava entre aquela falta de vida, percebia ainda mais forte que a morte deveria ser somente mais uma etapa. A etapa de desligar-se, de apagar a luz, de fechar as cortinas e encerrar o espetáculo que se dá no grande palco da vida. E assim, apesar de ser mais uma etapa, era a etapa sem dor, sem sofrimento, sem aquela agonia que sempre permanecia. Permanecia por ele estar vivo.
Viver era que doía.
Mesmo entre as lápides, entre aqueles que descansavam eternamente, percebeu que o simples facto de não ter onde os vivos descansarem ali no Monumentale era mais uma marca que existia: aqueles que tinham o coração por bater teriam que sempre caminhar, e um pouco de cansaço sempre estariam por lhes afligirem.
Até o final, a vida teria aquela velha, e constante, companheira que afligia o coração. O ato de viver não era a etapa de escolher a maior felicidade, mas sim, a menor dor.
Eram sempre escolhas, ele sabia disso, e sempre detestava. Ele não queria escolher. Queria o mundo, queria tudo, cada gole, cada badalada do sino, cada compasso da canção e cada ato da peça no palco da vida.
Por vezes ele escutava: "Você não pode abraçar o mundo".
Ele odiava ouvir aquilo, mas sabia que era verdade. Mas o correr atrás de tudo fora sempre mais uma de suas marcas.
E nesta maratona, a corrida era só.
Esta luta fora sempre solitária, e sempre contra ele mesmo.
Neste palco, era sempre monólogo que reinava.
E nem mesmo plateia havia. A solidão e corroer era mesmo só. Seja enquanto o eterno descansar encontrava-se nas lápides, seja enquanto o coração batia. Ou melhor, doía.
Isso tudo não era marca de amargura ou de pessimismo, mas era somente a constatação do viver.
Poderiam chamá-lo de masoquista, mas ele gostava do viver. Era uma das tarefas emocionantes da caminhada. Tinha o arde das emoções, a intensidade dos sentimentos, e a tragicomédia dos gregos e romanos. Até mesmo os troianos marcavam presença com a guerra e o amor. Fortes por natureza, e doloridos, coloridos e corroídos no mesmo quanto e tanto.
O corroer de coração era marca presente do viver. E, talvez por isso, ele parava de bater na morte. Não teria mais dor, não teria mais sofrer, não teria mais nada. Nem o coração a sofrer.
E a morte não doía.