segunda-feira, 5 de julho de 2010

Aportar

Em tempos atrás, ele pensou que havia parado o viver e seguido para além do além-mar. Mas, porque por vezes as passagens da vida são contraditórias e no entanto possuem a beleza intrínseca do mistério, fora um processo quase contrário de tudo que pensara e que acharia.

Afinal, quando se pensa que está preparado, pode realmente não estar.
Quando se acha que se perderá, é então que há o encontro.
E ele pensava que estava por ir vagar, no entanto, o que faria era aportar.

E isso porque aportar não está ligado ao facto de estar abrigado a beira, está ligado ao facto de ter para onde voltar, ter onde jogar suas âncoras na terra, suas raízes no mar e assim ser mais do que simplesmente guarida; é ser Identificação.

Mas para identificar-se precisa saber do intrínseco e pertencente a si, pois caso contrário, sempre se vagará a olhar para espelhos imperfeitos, e nunca um porto há-de encontrar. E assim, antes de encontrar, perdeu-se entre sonhos, mas também pesados pesadelos; perdeu-se de si mesmo e até mesmo do seu coração, perdeu-se entre cobertores depressivos e a cinzitude dos porquês; perdeu-se em porquês que seriam somente respondidos no tempo, tempo correcto de aportar.

E na identificação de aportar, o tempo não o matara como fizera com Narciso. Este sempre achou feio o que não era espelho e teve seu fim ao fundo. Com ele quase fora o contrário: fora ao fundo e reflexo que vira fizera o voltar a superfície para então encontrar-se. Soubera dos porquês exactos de latitudes e longitudes, do passado arraigado em si, do poder de palavras pronunciadas, e até mesmo do quadriculado que havia em seus pés. Soube da sua independência, da sua métrica, da sua exclamação, determinação e também mesmo dos pontos de interrogação. Soube do que gostava em si, até mesmo do que gostavam, do coração, da falta que faria e que este também sentiria.

Como nunca, fora ele próprio pela simples estratégia de ser, e gostara disso, gostaram disso, conquistaram com isso e, por isso, foi e foram felizes. E esta felicitude não seria mais circunstancial e quase paradoxal, seria presente porque encontrara-se, encontraram-se, identificou, identificaram-se, e assim, apesar de mais quantos mundos criasse e encontrasse, tinha onde poderia voltar quando quisesse, tinha sempre um reflexo, um ponto.

Tinha seu Porto.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

no Cais

E ali no cais, no cais de seu Porto, ele podia ver mais do que somente o oceano que se estendia a sua frente. Mesmo com os olhos voltados para o além-mar, mesmo com estes marejados, podia ver tudo que havia atrás de si, atrás de seu corpo, atrás de sua história. Era perceber tudo, permanecer em si e em tudo, e assim, fazer história. Histórias de vidas, de portos e de cais que são feitas de pessoas, por pessoas, e para pessoas, e deste modo e por este modo, possuem o engrandecimento de valer a pena.

E ali no cais, no cais de seu Porto, ele podia perceber a calmaria perante o sublime que fazia levitá-lo, elevá-lo, plano e pleno sobre o que era e o que seria. Poderia haver sim estática no ar, mas também havia toda a recolha da tempestade, e toda fúria da calmaria devido ao facto da felicidade ser pertencente a atmosfera que rodeava.

E ali no cais, no cais de seu Porto, bagagens eram maiores do que deveriam porque ele tinha vivido. E é impossível aprisionar o tudo internamente em compartimentos herméticos; e por este facto, desafiou o impossível, engrandeceu ainda mais o coração, fez e desfez e refez, e assim conquistou, conseguiu, e aportou.

E ali no cais, no cais de seu Porto, virou as costas para o mar, não como um sinal de desprezo, mas somente porque suas memórias deliciosas, e suas lembranças vivas continuavam por lhe chamar pelo nome, seu nome; como assim era, como assim quisera, como ele percorreu o mundo até encontrar alguém que soubesse como ele chamava e ali encontrou vários. E este processo seria mútuo e em conjunto, como fora ali: dele descobrir e reconhecer seu real nome ao mero sonorizar de tal, e das pessoas saberem como chamá-lo e até mesmo pronunciá-lo, e assim, fora ali que isso acontecera.

E ali no cais, no cais de seu Porto, percebeu ainda mais que todo processo de grande valor nessa vida era feito de pessoas. E de maneira melhor do que Narciso, ele tinha se encontrado naquelas águas e naqueles reflexos porque tinha se encontrado nas pessoas. Ele não era de lá, ainda não sabia ao certo se era completamente e somente de cá, mas era mais uma vez a quebra do velho paradigma imposto, e assim que não era dele, que dizia que não poderia ter tudo. Nos seus parâmetros sim, assim como nos padrões de Sócrates, poderia ter tudo, poderia ser de tudo. Nem grego, nem troiano, nem ateniense; cidadão dos seus mundos.

E ali no cais, no cais de seu Porto, já com os olhos fechados, e por não saber se direccionava-se para seu Porto, ou para o além-mar, alto-mar, ele sentiu a certeza dentro de si que voltaria. Mais do que voltar ao seu Porto, voltaria a se encontrar, a valorar, a desafiar, a ser, perceber, permanecer, porque mais do que passado, agora era presente, era agora. E presente era o que pudera ter e viver porque assim ele fora sempre parte da completude que havia, fora também cais, e fora também Porto no seu cais, no seu Porto.