sexta-feira, 2 de julho de 2010

no Cais

E ali no cais, no cais de seu Porto, ele podia ver mais do que somente o oceano que se estendia a sua frente. Mesmo com os olhos voltados para o além-mar, mesmo com estes marejados, podia ver tudo que havia atrás de si, atrás de seu corpo, atrás de sua história. Era perceber tudo, permanecer em si e em tudo, e assim, fazer história. Histórias de vidas, de portos e de cais que são feitas de pessoas, por pessoas, e para pessoas, e deste modo e por este modo, possuem o engrandecimento de valer a pena.

E ali no cais, no cais de seu Porto, ele podia perceber a calmaria perante o sublime que fazia levitá-lo, elevá-lo, plano e pleno sobre o que era e o que seria. Poderia haver sim estática no ar, mas também havia toda a recolha da tempestade, e toda fúria da calmaria devido ao facto da felicidade ser pertencente a atmosfera que rodeava.

E ali no cais, no cais de seu Porto, bagagens eram maiores do que deveriam porque ele tinha vivido. E é impossível aprisionar o tudo internamente em compartimentos herméticos; e por este facto, desafiou o impossível, engrandeceu ainda mais o coração, fez e desfez e refez, e assim conquistou, conseguiu, e aportou.

E ali no cais, no cais de seu Porto, virou as costas para o mar, não como um sinal de desprezo, mas somente porque suas memórias deliciosas, e suas lembranças vivas continuavam por lhe chamar pelo nome, seu nome; como assim era, como assim quisera, como ele percorreu o mundo até encontrar alguém que soubesse como ele chamava e ali encontrou vários. E este processo seria mútuo e em conjunto, como fora ali: dele descobrir e reconhecer seu real nome ao mero sonorizar de tal, e das pessoas saberem como chamá-lo e até mesmo pronunciá-lo, e assim, fora ali que isso acontecera.

E ali no cais, no cais de seu Porto, percebeu ainda mais que todo processo de grande valor nessa vida era feito de pessoas. E de maneira melhor do que Narciso, ele tinha se encontrado naquelas águas e naqueles reflexos porque tinha se encontrado nas pessoas. Ele não era de lá, ainda não sabia ao certo se era completamente e somente de cá, mas era mais uma vez a quebra do velho paradigma imposto, e assim que não era dele, que dizia que não poderia ter tudo. Nos seus parâmetros sim, assim como nos padrões de Sócrates, poderia ter tudo, poderia ser de tudo. Nem grego, nem troiano, nem ateniense; cidadão dos seus mundos.

E ali no cais, no cais de seu Porto, já com os olhos fechados, e por não saber se direccionava-se para seu Porto, ou para o além-mar, alto-mar, ele sentiu a certeza dentro de si que voltaria. Mais do que voltar ao seu Porto, voltaria a se encontrar, a valorar, a desafiar, a ser, perceber, permanecer, porque mais do que passado, agora era presente, era agora. E presente era o que pudera ter e viver porque assim ele fora sempre parte da completude que havia, fora também cais, e fora também Porto no seu cais, no seu Porto.